Somos todos calouros

Os trotes universitários podem até ser um assunto polêmico, mas não deixam de ser assunto para ser exposto e discutido.

Quando alguém atirou uma banana num campo de futebol para o jogador negro, um intenso marketing varreu e engoliu a mente dos brasileiros e as redes sociais foram infestadas de “somos todos macacos”.

Ele foi capaz de alcançar o mais concorrido curso da melhor universidade do país. Mas foi interrompido de continuar pela atrocidade coletiva da mesma universidade.
Ele foi capaz de alcançar o mais concorrido curso da melhor universidade do país. Mas foi interrompido de continuar pela atrocidade coletiva da mesma universidade.

Em 1999, Edison Tsung Chi Hsueh, um calouro de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) foi encontrado morto na piscina do campus. Ele foi forçado a entrar mesmo alegando não saber nadar. Os quatro veteranos que participaram do ato foram denunciados pelo Ministério Público, mas o caso foi arquivado por FALTA DE PROVAS. Todavia, não houve mobilização expressiva. Tudo e todos se calaram, pois no fim das contas, trotes são vistos com naturalidade por todos, já que a prática é prazerosa para engrandecer o ego de veteranos frente aos calouros.

Discentes, funcionários, direção, sociedade e até mesmo os próprios calouros calam-se num silêncio que representa o pior dos graus do comodismo frente à cultura da violência. O único exemplo a ser ressaltado foi a PUC-SP que proibiu trotes a partir de 1965, depois que um estudante foi morto com o corpo queimado ao entrar num barril com água e cal.

O argumento incabível de ser um “ritual de passagem” reforça todas as práticas violentas, constrangedoras e incoerentes. Mal sabem estes que praticam, que a passagem do ensino médio para o ensino superior foi árdua e já pode ser considerada um “ritual”.

Todavia, departamentos continuam a achar graça no calouro pintado e sujo e engavetam os poucos casos onde um ou outro teve a coragem de denunciar a violência. Ao invés do “Eu calouro burro (…)” torcemos para que o futuro reverta o triste histórico de violência e dê lugar ao “Somos todos calouros!”.

Vítima da cultura dos "rituais de passagem" que mais parecem práticas dos tempos da escravidão no Brasil.
Vítima da cultura dos “rituais de passagem” que mais parecem práticas dos tempos da escravidão no Brasil.
Somos todos calouros

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